Desde os tempos da escola, ouço dizer que o Brasil é um país desigual. Naquela época não compreendia essa frase, entendia que havia situações diferentes, mas por inocência, não era capaz de identificar a sua complexidade. Não fui e nem serei a única criança a admirar na TV um mundo longe da minha realidade, carros modernos, belas mansões e estilos de vida que cruzam o horizonte. Também não fui o único a me perguntar o porquê de não ter parte daquilo. Vizinhos com os mais recentes videogames e as bicicletas mais legais; brincar com meu irmão com ótimos bonecos e carrinhos da Hot Wheels, mas também em me admirar ao ver outros meninos brincando com carros feitos de garrafas pet.
Na adolescência pude vivenciar novas experiências, novas situações e conhecer novos locais e pessoas. A visão do mundo mudou de forma brusca, eu mudei de forma brusca. Ao perceber a realidade "como ela é", choca.
Sempre tive a oportunidade de receber uma excelente educação, tanto em casa, quanto na escola. Aulas sempre no horário, professores que não faltavam, material de qualidade e climatização adequada. Lembro como se fosse hoje minha surpresa ao receber minha primeira prova bimestral na universidade pública que frequentei. Uma folha de papel contendo as questões, rabiscadas em alguns pontos e uma folha de papel com pauta para colocar as respostas; os aparelhos de data show deveriam ser reservados com duas semanas de antecedência, pouco funcionavam. Já na faculdade particular que atualmente estudo, nossas provas são impressas, assim como seus respectivos cartões resposta, todas as salas apresentam data show.
Celebrações, encontros e confraternizações são momentos que identificamos pequenos gestos que mostram essa desigualdade. A vestimenta dos presentes, a forma de falar e as crianças, por exemplo. Ainda que muitos tentem adquirir vestimentas que reforcem a visão de permanecer em um nível diferente. Há também as pessoas mais "educadas", mantém o tom de voz, não tocam nos outros com frequência, controlam o riso, não utilizam palavras bruscas. Crianças! Bela forma de mostrar a forma com as quais são educadas. Pais que passam o dia fora, no trabalho, sentem certa dificuldade em controla-las, seus dengos, gritos e exigências, as demais mantém a postura para não ficar de castigo quando chegar em casa.
O objetivo não era enfatizar o batido tema da desigualdade econômica, o mais cético é capaz de identifica-las. As divergências decorrentes desta desigualdade são bem mais complexas do que podemos imaginar. Não impactam somente nosso comportamento e nossa percepção do que nos cerca, mas agrega, sobretudo a nossa formação cultural, nossos hábitos mais comuns, nossa forma de relacionar com os outros. Por este motivo, estranhezas são comuns àquelas que cresceram enxergando o mundo de forma diferente.
Não pode-se esperar mudanças a curto prazo, sobretudo quando os caminhos necessários crescem de forma diferente. Mesma realidade, visões diferentes. Nova realidade, visões diferentes sim; em menor escala que antes.
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